Publicado por: clinicamedicaepm | 3 f, 2009

Depoimento de um médico oncologista do Recife.


saudade


No início da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar de crianças,me entusiasmei com a oncologia infantil. Tinha, e tenho ainda hoje, um carinho muito grande por crianças. Elas nos enternecem e nos surpreendem com suas maneiras simples e diretas de ver o mundo, sem meias verdades.

Nós médicos somos treinados para nos sentirmos “deuses”. Só que não o somos! Não acho o sentimento de onipotência de todo ruim, se bem dosado. É este sentimento que nos impulsiona, que nos ajuda a vencer desafios, a se rebelar contra a morte e a tentar ir sempre mais além. Se mal dosado, porém, este sentimento será de arrogância e prepotência, o que não é bom. Quando perdemos um paciente, voltamos à planície, experimentamos o fracasso e os limites que a ciência nos impõe e entendemos que não somos deuses. Somos forçados a reconhecer nossos limites!

Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional. Nesse hospital, comecei a freqüentar a enfermaria infantil, e a me apaixonar pela oncopediatria. Mas também comecei a vivenciar os dramas dos meus pacientes, particularmente os das crianças, que via como vítimas inocentes desta terrível doença que é o câncer.

Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim.

Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada porém por 2 longos anos de tratamentos os mais diversos, hospitais, exames, manipulações, injeções e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimioterapias e radioterapia. Mas nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar sim, muitas vezes, mas não via fraqueza em seu choro. Via medo em seus olhinhos algumas vezes, e isto é humano! Mas via confiança e determinação. Ela entregava o bracinho à enfermeira e com uma lágrima nos olhos dizia: faça tia, é preciso para eu ficar boa. Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto.

Perguntei pela mãe. E comecei a ouvir uma resposta que ainda hoje não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.

Meu anjo respondeu: – Tio, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!

Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem seus heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei:

- E o que a morte representa para você, minha querida?

- Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama não é? (Lembrei que minhas filhas, na época com 6 e 2 anos, costumavam dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim.)

- É isso mesmo, e então? – Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós dormimos, nosso pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama, não é?

- É isso mesmo querida, você é muito esperta!

- Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!

Fiquei “entupigaitado”. Boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o sofrimento acelerou, com a visão e grande espiritualidade desta criança, fiquei parado, sem ação.

- E minha mãe vai ficar com muita saudade minha, emendou ela.

Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei ao meu anjo:

- E o que saudade significa para você, minha querida?

- Não sabe não, tio?   Saudade é o amor que fica!

Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor que fica! Um anjo passou por mim… Foi enviado para me dizer que existe muito mais entre o céu e a terra, do que nos permitimos enxergar. Que geralmente, absolutilizamos tudo que é relativo (carros novos, casas, roupas de grife, jóias) enquanto relativizamos a única coisa absoluta que temos, nossa transcendência. Meu anjinho já se foi, há longos anos.

Mas me deixou uma grande lição, vindo de alguém que jamais pensei, por ser criança e portadora de grave doença, e a quem nunca mais esqueci. Deixou uma lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores.

Hoje, quando a noite chega e o céu está limpo, vejo uma linda estrela a quem chamo “meu anjo, que brilha e resplandece no céu”. Imagino ser ela, fulgurante em sua nova e eterna casa. Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que ensinaste, pela ajuda que me deste. Que bom que existe saudades! O amor que ficou é eterno.

Rogério Brandão

Médico oncologista clinico

RC Recife Boa Vista D4500

Cremepe 5758″


Respostas

  1. Recebi seu Texto de uma Amiga e fiquei muito emocionada, pois tudo isto aconteceu com a minha Família.

    Nós também tivemos a passagem de nossa Filha de 9 anos e sentimos exatamente o que o texto fala…

    Da Saudade que fica…

  2. Rogério brandão,
    Que experiência linda você viveu, apesar do lado triste da história, mas como seu anjinho mesmo lhe falou, estamos aqui só de passagem, e ela cumpriu seu tempo nesta vida. E lhe deixou, e a todos que você comunica este fato, com eu, a realidade da espiritualidade que há em todos nós, e da preparação que Deus nos dá, antes dá morte, e o sinônimo da palavra SAUDADE.
    Isso é o que fica de bom, do seu ajinho. Eu também tenho anjinho no céu.
    Que Deus o ilumine em sua profissão.
    Newmann

  3. Para Rogério.
    É de impressionar este relato.Muinto bom.Muitos medicos deveriam ler pois como você mesmo disse muitos se acham onipotentes.Espero que este relato se espalhe principalmente aqui com os medicos de São Paulo,que muitos se consideram DEUS.Sou de Recife e por motivo de ter pessoas com diabetes na família preciso ter contatos com varias especialidades medicas por isso tenho experiência para falar disso ,além de ser Psicóloga e olhar sempre para o lado humano da situação.Experiência unica que Deus lhe deu oportunidade de ter com alguem tão sublime e que mãe abençoada.

  4. Chorei muito ao ler este relato, pois minha filha partiu com dez aninhos com um tumor no cérebro, e ela também foi um Anjo pois nunca reclamou de nada e até agradecia as enfermeiras pela injeções que tomava. Eu agradeço a Deus por ter dado meu Anjo por Dez anos e não me revolto por ter levado ela, pois ela também cumpriu sua missão.

  5. Realmente é linda a estória e a mensagem que deixa…
    Mas não acredito muito em médicos que se “deixam” levar por uma experiência maior: Deus!
    Eles deveriam se lembrar SEMPRE, que são meros instrumentos da vontade Dele. E nunca capazes de resolver SOZINHO! Deus dá as ferramentas e vc deve saber o que fazer, ou pelo menos tentar fazer. Mas como fé remover montanhas, e antes tarde do que nunca…Quem sabe, os vários anjinhos e anjões, possam deixar uma mensagem para esses doutores. Paz, paz aos de longe e paz aos de perto. (Ef)

  6. Dr.Rogério Brandão!!!Acabo de ler seu texto sobre a SAUDADE,que uma amiga me enviou.Procurei seu nome na Google, e venho te aplaudir muito,muito mesmo!
    Se Deus levou aquele anjinho,que você tanto amou,Ele deixou aqui na Terra,outro anjo,chamado,Dr.Rogério Brandão!
    PARABÉNSSSSSSSSSSSSSSSSSS
    BRAVOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
    BRAVOOOOOOOOOOOOOOOOOO

  7. Dr. Rogerio adorei essa história, achei sem querer procurando textos sobre saudade, qdo vi q se tratava de criança e oncologia me chamou forte a atenção. Realmente eles são anjos, trabalho em um hospital oncológico e vejo como elas tem forças muito mais q os adultos. Nunca os vemos desanimadas nunca mesmo. Realmente essa pacientinha era um anjinho como muitos e muitos por ai q infelizmente nos deixam, mas deixam muita lição de vida amor e carinho inesqueciveis em nossos corações. Perdi um afilhado com 6 anos de idade, hj vejo q ele foi um anjinho tbm.
    Q Deus o bençoe sempre dr. e q teus pacientes sintam se mesmo amados por um anjo q o senhor é. Bjs em teu corção fica na paz do senhor…..

  8. Dr. Rogério,

    Emocionada, acabo de ler seu depoimento. O seu texto tem a capacidade de mexer lá no fundo da nossa sensibilidade, tocando-nos de tal forma, que nos leva a refletir no verdadeiro sentido da vida. Se era essa a sua intenção, acertou em cheio. Parabéns!!!! Grande abraço.

  9. Eu nao sei nem o q falar so sei, q eu tenho um anjo so pra mim…

  10. “Saudade, amargo sonho de realidade”
    Esta definição de saudade foi escrita pelo meu falescido Pai em um de seus poemas.. também acho linda.

    Parabéns pela história Doutor e, principalmente pela lição dada por este anjo e, também por vossa atitude de passar adiante e tentar tocar os corações.. com certeza tocou e fez bem a muita gente. Parabens!

  11. Dr. Rogério, recebi seu artigo de uma amiga é verdade mesmo”saudade é amor que fica” mas saudade só fica porque é o amor que plantaram em nós e criou raizes profundas.Amei seu relato, já fui voluntária na Sta Casa da minha cidade e para minha alegria minha filha cursa medicina,só peço que minha filha seja uma médica humana e nunca um semi-Deus, saudade dói muito não é mesmo?Parabéns pelo seu trabalho!!!! responda-me se puder.

  12. Caro Anjo Rogério Bradão,

    não consigo enumerar o número de vezes em que recebi este seu depoimento e a cada vez, me emociono muitissimo!
    Gostaria de desejar que o Mestre Maior continue a abeçoá-lo e usá-lo como instrumento.
    E mais, precisamos de profissionais com essa empatia e amor ao próximo.

    Abraço fraterno.

    Isabel Cristina de Oliveira


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.